10/03/2012

tinta de romã

se hoje o meu sangue é quente, tu sabes...
lábios carnudos e pétalas violetas,
tons graves e uma sirene de nevoeiro,
lençóis de seda e mel anizado.
se hoje me meneio no teu rosto, tu sabes...
os dias ausentes de nós,
grávidos dos beijos silentes,
na capa do livro sem título.
folheia-me ao sabor do outono
e escreve em mim o nós,
ou o tu e eu,
como queiras...
inscreve-nos no âmago de qualquer coisa
com a tinta colhida
na lágrima de um bago de romã.

sonho

dança de lobos.
crepitam as mãos.
fecham-se para o sono
nas horas incertas.
ouve o molhado
das superfícies.
boca voraz.
engolidos.
as luzes de néon
e o silêncio da noite.
onde está
o teu sorriso?

memória enrugada

dedos que fiam e tecem.
aranhas sem seda.
engelhados...
cascas de clementina
e um perfume adocicado.
um copo vazio enviesado
no tampo de madeira tosca.
rodas de bicicleta,
violetas com pontos amarelos.
um quadro,
uma natureza morta.
e a memória enrugada
dos teus dedos
no piano.

08/12/2011

oração

peço-te, por tudo,
um novo mundo,
um novo dia,
um novo caminho,
e o calor das mãozitas
que me afagam a face
em cada partícula
que me sustenta
o corpo na alma.

imagética

Há momentos na vida em que apetece começar tudo de novo, oferecer-nos uma segunda oportunidade, mesmo que não dê certo, mesmo que volte a magoar, a desiludir. A vida é uma viagem fantástica! O meu campo está cheio de flores exóticas, amendoeiras em flor, oliveiras prenhes. A luz alumia bem alto. Que saudades do cheiro do mar entranhado na pele, do sabor do sal do mar nos lábios gretados pelo sol, do ar puro da montanha que nos prende a respiração, de cair na neve fofa a olhar para o céu azul, de fazer cócegas e fugir para não sofrer retaliações, de cantar ópera de noite no carro, a caminho de nenhures sob o negrume do céu. Que saudades de ser criança!
Por que será que não quero crescer?

18/11/2011

não quero a verdade.
não quero a mentira.
só o calor dos teus lábios.

Ámen

fecha os olhos e sente,
sente os nós de garganta,
o olhar triste e o peso dos dias,
sente a cor cinza do horizonte,
o negro do carvão que palpita,
as unhas cravadas na carne,
o estômago colado em asfixia,
sente a dor, a apatia, a indiferença,
a raiva, a impotência, a impaciência,
a desigualdade, a injustiça, a sobranceria.
agora, abre os olhos e vê o que podia ser.
com respeito, transparência e rigor,
competência, esforço e vontade,
humildade, verdade e coragem,
todos no mesmo sentido,
todos em sintonia.
Ámen.

17/11/2011

portuguesa

por amor
por dever
por orgulho.
pátria e mátria.
não vou desistir de ti.
não desistas tu também de mim.

16/11/2011

medo

a perigosidade da pequenez,
o afunilar do pensamento...
dormem na palavra medo
inscrita na contracapa do silêncio!

28/10/2011

ímpetos salgados

perdi as lágrimas na espuma
nas ondas nas algas na areia.
o mar não nasce nos olhos,
mas na força de um peito vivo.
não há vazante, nem enchente;
aqui, apenas batem marés vivas.

quando um olhar

foram os teus olhos, sabias? a intensidade do teu olhar sobre o meu. não mediste forças. não me possuíste. não me violaste. apreciaste-me devagar. lentamente. degustaste o sabor dos meus olhos. fizemos amor. percebeste isso? naqueles segundos que duraram minutos, que duraram horas, que duraram dias? nunca tinha feito amor assim. e gostei! gostei muito! gostei tanto! foram os teus olhos. a culpa é toda dos teus olhos...

ecos

ecoas cá dentro
vezes demais.

já não me lembro
como se sonha.

vives em mim
há quanto tempo?

faz-me sorrir
e ouvir a voz
do teu sangue.

01/10/2011

campo magnético

dá-me a tua mão. está quente! o que sentes na minha? o percurso dos dias que estão por nascer ou o gelo daqueles em que te deixaste morrer? segura-me com força, abraça-me, encosta a tua cabeça à minha. não digas nada. fica assim. assim, como estás agora. sossegado, meigo, penetrante. a tua presença é tão doce, é tão boa. gostava de ficar assim eternamente, imune à passagem dos tempos. o teu calor... está na hora. vamos escrever o resto das horas que nos faltam. alinha-me com o universo e dispara-me sobre a face da lua. eu sou a brisa que te beija o rosto e a luz que germina no teu seio. eu estou em ti e sempre estive. sou aquele pulsar que não sabes explicar, a memória que não consegues apagar. as minhas raízes nutrem os meus bens mais preciosos, e as nozes, o mel, os beijos que nascem em mim afagam cada um dos meus dias. doce veneno.

essa coisa estranha

magoa, sustém-nos a respiração, molha-nos os olhos apenas porque sim, faz disparar o ritmo cardíaco, fecunda a imaginação, apodera-se de nós, dá-nos apetrechos para perdoarmos, faz-nos ver o que mais ninguém vê, conduz-nos por caminhos acidentados, que nem sempre são os mais óbvios, tranquiliza-nos, faz-nos sentir especiais e únicos, preenche os nossos dias com magia, desenha sorrisos e pequenas rugas de felicidade, oferece-nos um sentimento de pertença, de importância, dá-nos vida...
essa coisa estranha, que nos fomenta tanta contradição, uma lágrima alegre, um sorriso dorido, onde o gelo derrete e o sol é diferente todos os dias, onde a lua nos abraça, esse lugar sem mapa, esse canto encantado, essa escala musical que nos percorre e arrepia, que desfia um olhar de cada vez, essa manta quentinha, macia, esse doce aveludado...
é mesmo estranha!

27/09/2011

letras

sol de Outono,
não me deixes ser Inverno...
não me deixes ser Inverno...

03/07/2011

silhuetas

o que queres que te diga
se é no silêncio que se movem
as palavras que habitam
a sombra dos meus dias?
se olhares para os meus olhos
verás tudo o que tenho para te dar,
te dizer, te oferecer.
não sou mais do que isto,
não sei mais do que isto:
uma mão na outra,
um sussurro no vento
uma lágrima teimosa
um beijo no rosto
uma memória futura...

15/06/2011

crisálida

ontem, era menina. só menina. quero morrer ontem. já chega! amanhã, quero ser além. não aguento mais as delicadas teias que envolvem os meus gestos, o meu pensar, as palavras que deixo a pairar no ar. quero deitar-me ao ar livre, de preferência, à chuva sobre um qualquer tronco velho curvado perante a minha nudez e lascívia. e à noite! quero vestir-me despudoradamente, com os seios bem marcados sob um decote indecoroso, de ancas bem vincadas a segurar a saia que mostra apenas meio joelho, de saltos altos a projectar-me para o céu, como se estivesse numa estação elevatória a caminho do pecado. só o rosto não tem pintura nem disfarces. tenho a cara lavada, harmoniosamente estruturada sobre um corpo ardente. quero rir-me sem cuidado, sem medo de cair para trás, sem receio do ridículo ou do risível (como teorizou Kundera), estar-me nas tintas para a pequenez das cabeças intelectualóides sob cujo crivo passa toda a normalidade banal que grassa por aí, com palavras rebuscadas e sem sentido, mas que todos aplaudem, precisamente por não perceberem nada!
gostava de deixar o casulo, de nele abrir as fissuras suficientes que me permitissem espreitar cá para fora, que me deixassem ser mulher! ah, como o fogo queima impiedoso as minhas entranhas...

sabor a sal

a vida é um mar de promessas e, quando menos se espera, um novo rumo aguarda-nos, inteiro! está ali, à nossa espera. chama-nos a sorrir. sem pressas, sem angústias. por que levamos tanto tempo a decidir? de quem temos nós tanto medo? que magoe? da solidão? do engano? patetas! a vida é isso mesmo. conjugar dos contrários numa mão e reencontro connosco na outra. ah, sedução da alma... esta vida faz-me perder a cabeça. sorri-me nos olhos e sussurra-me aos ouvidos:
«não tenhas medo. vem. deixa-te ir. deixa-te ir.»
a vida está a seduzir-me e eu estou a ficar apaixonada. como gosto de viver, meu Deus! como gosto! vou perseguir sorrisos com a fúria das tempestades, até ficar exausta e não conseguir mais do que deixar-me cair no chão, de sorriso estampado nos lábios. quero ser criança até ao final, até ao desagregar de cada átomo meu nas mãos do universo.
«não tenhas medo.»
diz-me a vida a sorrir... sacana! como mexe comigo! como adoro viver!

31/05/2011

sei-te

sei-te
sem o saber,
porque a pedra
chorou pétalas
e a água
pariu terra,
sei-te
apenas,
porque a lua
se desfez
e o gelo
aqueceu
o teu sangue,
sei-te
em cada gesto,
e sei-te
para sempre.

seiva

e se, porventura, as nossas
bocas se encontrassem nas
asas da borboleta que embala
o meu sono?

e se, por acaso, as nossas
bocas se tocassem em sopros
de clarinete despido
da noite?

as nossas bocas

generosos veios
por onde corre
a seiva primeira