11/07/2010

querido pai

uiva o vento que ainda não nasceu, em golfadas sucessivas, no emaranhado ardente que serpenteia ardiloso no centro da Terra. o crepitar das gordas larvas negras sobre o meu corpo desperta-me do torpor em que o cheiro nauseabundo encaixotado me conserva.
«vou ter saudades tuas pai. não chores!»
as hediondas harpas dançam ritmadas em torno do corpo que tresanda a morte e arrastam os véus transparentes sobre as gretas que se abrem nos lábios, nas sobrancelhas, nas maçãs do rosto. fazem o chamamento. rasga-se a parede de ar e, do lado de lá, vejo chamas azuis carcomidas por escaravelhos vermelhos, moinhos de vento com as velas rasgadas, em ruínas, a flutuar num campo de medos e traições.
«tenho medo, pai! cuida da mãe e das manas. enxagua as lágrimas, meu paizinho. dá-me as mãos, por favor. tenho medo!»
do fedor negro que invade o interior do esquife liberta-se uma réstia de ar fresco, um último sopro de amor. apaga-se a chama da vida. fica fria, a chama, brilha azul e branca. e depois, tudo escurece, tudo se esquece de mim. não mais existo. não para vós!
«deixei de te ver, paizinho. onde estás?»
nesse instante, tudo desapareceu: as larvas, as harpas, as chamas (azuis, não eram?), os escaravelhos, os moinhos...
«e tu também, pai! vou ter tantas, mas tantas saudades, meu querido pai!»

2 comentários:

Vieira Calado disse...

Texto muito sentido, amiga!

Amiga, aliás,

que há tanto tempo não via por aqui.

Bem haja!

JRL disse...

Obrigada. Até breve!